

A Evolução dos Peixes
Os primeiros peixes surgiram há cerca de 500 milhões de anos e eram semelhantes às lampreias actuais. Posteriormente, há aproximadamente 400 milhões de anos surgiram os peixes com esqueleto cartilagíneo. Actualmente são representados pelos tubarões, raias e esturjões. Os dois primeiros grupos são marinhos, enquanto que os esturjões são migradores anádromos (vivem no mar e reproduzem-se nos rios). Mais recentemente, há mais ou menos 250 milhões de anos, surgiram os primeiros peixes com esqueleto ósseo.
A maior parte das cerca de 22 000 espécies de peixes, que se estima que existam actualmente no mundo, pertencem ao grupo dos peixes ósseos. Relativamente aos peixes de água doce, a Península Ibérica apresenta um elevado número de endemismos, ou seja, espécies que só existem nesta região geográfica. Este facto pode ser explicado pelo isolamento geográfico em que estas espécies evoluíram. Há cerca de 35 milhões de anos ocorreu o levantamento dos Pirinéus que levou ao isolamento das populações ibéricas das europeias. Por seu turno, o Estreito de Gibraltar formou-se há cerca de 3 a 4 milhões de anos, ficando estas populações isoladas das do Norte de África. Consequentemente, originaram-se na Península Ibérica espécies diferentes das europeias e das que existem no Norte de África. Assim, só em Portugal existem actualmente cerca de 32 espécies autóctones, das quais 15 são endemismos ibéricos e 5 são endemismos portugueses. Este número pode ainda aumentar já que estão a ser realizados estudos de genética molecular que poderão permitir a descoberta de outras espécies endémicas de algumas bacias portuguesas/ibéricas. Apesar de serem únicas no mundo e da sua importância para o bom funcionamento dos ecossistemas aquáticos a maior parte destas espécies encontra-se em risco de extinção.

Caracterização Morfológica dos Peixes
Actualmente nos sistemas aquáticos do nordeste transmontano só se encontram referenciados peixes ósseos. Por isso, no presente documento, a caracterização morfológica só se refere a este grupo de peixes. A figura representa um peixe ósseo tipo.
De um modo geral um peixe ósseo apresenta duas séries de barbatanas pares: as peitorais (1) e as pélvicas (2). Apresenta igualmente várias barbatanas impares: a dorsal (3), a anal (4) e a caudal (5). As pares têm essencialmente um papel de estabilização. A função das barbatanas dorsal e anal é comparável à da quilha de um barco. Finalmente, a caudal tem um papel de propulsão. Estas podem ter raios espinhosos (6) e/ou moles (7). Os salmonídeos (trutas e salmões) apresentam ainda entre a barbatana dorsal e a caudal uma pequena estrutura carnuda chamada barbatana adiposa (8). A linha lateral (9) tem uma textura ligeiramente diferente da do resto do corpo. Consiste num certo número de poros ligados por um canal situado logo abaixo da superfície da pele. Esta estrutura tem funções sensoriais e permite a detecção de presas, predadores e avaliar distâncias. Os barbilhos, presentes em algumas espécies (10) são órgãos tácteis com papel importante na procura do alimento. O óperculo (11) é uma estrutura óssea que cobre as brânquias.
Outras curiosidades sobre os nossos peixes
• As escamas são estruturas ósseas que se formam na camada mais profunda da pele. Nas regiões temperadas, com estações do ano bem marcadas, ocorre uma alternância de períodos rápidos de crescimento (Primavera) com períodos de crescimento lento (Outono/Inverno). Consequentemente, verifica-se a formação anual de anéis concêntricos nas escamas. Como estas se originam quando o peixe tem somente algumas semanas de idade e são as mesmas ao longo de toda a sua vida, contando os anéis que se formam anualmente e medindo as distâncias entre eles é possível determinar a idade e o crescimento do indivíduo ao longo do tempo. Saliente-se que os peixes, ao contrário da maior parte dos vertebrados, crescem durante toda a vida, mas a taxa de crescimento decai acentuadamente aquando da primeira reprodução. O estudo da idade e do crescimento permite a obtenção de dados importantes para a gestão de populações de espécies exploradas comercialmente. Por exemplo, a definição do tamanho mínimo de captura baseia-se nestes dados.
• Logo abaixo da coluna vertebral, existe um órgão auxiliar da natação: a bexiga gasosa. Esta estrutura é uma vesícula densamente vascularizada, cheia de gás, e que comunica com o esófago através de um canal. Quando o peixe mergulha, a bexiga gasosa liberta parte do gás e diminui de volume. Quando o inverso ocorre dá-se a entrada de gás e esta aumenta de volume. Assim, o peixe acaba por ter sempre uma densidade semelhante à da água e nunca se afunda.
• A maior parte das espécies existentes nos nossos rios são omnívoras. Isto significa que se alimentam de material vegetal e de animais. A dieta varia sazonalmente, pois as populações das presas também variam do mesmo modo e com o tamanho dos indivíduos. Os juvenis, exploram mesmo áreas de alimentação diferentes das dos adultos. Peixes como as trutas, o achigã e o lúcio têm dentes na cavidade bucal. Os barbos, os escalos e as bogas só possuem dentes faríngicos que trituram totalmente os alimentos. Os peixes que vivem e procuram o seu alimento no fundo denominam-se bentónicos. Na maior parte dos casos estes apresentam barbilhos. Os peixes que se alimentam e vivem na coluna de água são denominados pelágicos.
• A visão na maioria dos peixes é muito desenvolvida. Muitos conseguem distinguir cores e comprimentos de onda que vão do infravermelho ao ultra-violeta. O olfacto também é muito apurado em algumas espécies. Os salmões e outros grandes migradores apresentam o fenómeno de “homing” ou seja, voltam sempre ao rio onde nasceram para se reproduzirem. Está comprovado que estas espécies “memorizam” o odor da água do rio onde nasceram para um dia poderem voltar.
• As papilas gustativas, em grande parte das espécies, não se encontram restringidas só à cavidade bucal. Encontram-se nos barbilhos e em outros pontos do corpo. Os ouvidos, além de permitirem a percepção de sons, funcionam também como órgãos de equilíbrio.
• Os estímulos químicos são muito importantes na comunicação entre os indivíduos da mesma espécie. Em muitas espécies há a emissão de substâncias de alarme. Um peixe ferido por um predador emite estas substâncias, induzindo a formação de cardume ou a fuga dos outros indivíduos para os seus esconderijos. Estas formas comportamentais são um mecanismo de defesa contra a predação. Na altura da reprodução também parece existir comunicação química. Por exemplo, supõe-se que as hormonas libertadas pelos machos induzam a ovulação nas fêmeas. No entanto, o processo reprodutor também depende fortemente de estímulos ambientais, nomeadamente da temperatura e do fotoperíodo. Em geral nos nossos rios a reprodução ocorre na Primavera que é a época mais propícia à sobrevivência dos ovos, larvas e juvenis. Muitas espécies realizam migrações reprodutoras para montante do curso de água, pois é aí que existem os habitats mais favoráveis aos primeiros estádios de desenvolvimento.
• Na maioria das espécies não existe cópula, sendo a fecundação é externa e é impossível distinguir os machos das fêmeas fora da época de reprodução. Os ovos podem ser depositados sobre o cascalho, sobre a areia ou sobre a vegetação.
Ana Maria Geraldes, Ph.DEscola Superior Agrária de Bragança